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Feliz Natal!
 
Feliz Natal!
Iriê Salomão de Campos


No livro Revisão do Cristianismo, o pesquisador José Herculano Pires trafega por longo período da história do Cristianismo, realizando sobre teia de informações uma inédita trajetória. Desmistificar os ritos e símbolos introduzidos na cristandade para o resgate da emoção cristã é o objetivo da obra. Estuda, por exemplo, as alterações sofridas pelo calendário ocidental, avalia mapas e localidades clareando e preenchendo as lacunas sobre a passagem de Jesus pelo planeta. Conclui que a materialidade foi empanando a historiografia e, a cada interesse deste ou daquele, nova encenação era introduzida, levando-nos a transformar o Natal em um dia de profunda convenção terrena, quando os meios de comunicação de massa repetem antigos filmes que se limitam a reproduzir o sofrimento material do Cristo, como se aí encerrasse o objetivo de Sua vinda. É certo que, tendo por base nossa pouca evolução, necessitamos oficializar datas comemorativas, mas essas não podem suplantar a verdadeira razão de ser.

“Pai, como não sou compreendido pelos irmãos carnais, é chegada a hora de buscar aqueles que dispersos pelo mundo me ouvirão, atenderão e juntamente a mim levaremos as palavras de Deus aos mais distantes recantos, pois foi para isso que vim e assim o farei.”, disse Jesus a José. Assim procedeu, buscando cada qual daqueles que mais tarde seriam conhecidos como Apóstolos da Boa Nova. Encontramos, na despedida entre pai e filho, muitos ensinamentos. Esse poder é o natalício do Cristo de Deus, que se fez homem e deixou o regaço do lar enfrentando o ardil mundano na semeadura do amor. Demonstrou que a irmandade se faz verdadeira, não tanto na origem biológica, e sim na unidade de sentimento, o mesmo que uniu para todo o sempre Jesus e seus discípulos. José, em lágrimas, despediu-se do filho amado, consciente da verdade exalada no fervor das palavras daquele que partia. Três anos seguidos, o mundo explodiu em rojões ensinamentos de compreensão, amor ao próximo e perdão. “Eu vim para os que sofrem, para os rotos, humildes e abandonados”. No Cristo nasce a esperança; não o simples esperar de um dia melhor, mas a absoluta emoção que não se está só em desalento, o mundo não se resumia às materialistas ordens do Império Romano; algo mais suspirava no porvir. Ao arquear o corpo, tomar da água nas mãos em concha e lavar os pés dos leprosos, longe estava de estabelecer um rito natalino. Exemplificava naquele momento que ninguém, por mais exausto que esteja, tem o direito de omitir-se no auxílio a um sofredor. Não o fez em praça pública ou num templo entronado. Não é o gesto, é sim a mensagem que pode ser vista como mais um Natal.

Que importa se trocamos presentes com os afetos e se dos celtas herdamos a tradição do pinheiro, que para eles era símbolo de árvore eterna, visto que em nenhuma estação do ano perdia as folhas? Há algum malefício no comércio lícito aferir lucros, os mesmos que alimentam milhares de trabalhadores, cidades e países?

Natal é nascimento, seja este ou aquele dia, não faz mal. É a emoção de recordarmos a família, como tantas nos dias atuais são obrigadas a refugiarem-se em terras distantes, escapando da barbárie política- religiosa que intimida a emoção e a coragem de podermos viver sobre a égide do Amor do Cristo, banhados por seus ensinamentos. Natal é presentear ao nosso próximo, como símbolo de carinho e afeto, mostrando nossa mais pura intenção espiritual de fazer verdade o que Ele exemplificou ao despedir-se de José, “Vou em busca de meus irmãos que me auxiliarão na tarefa de semear o divino amor”.

Feliz Natal!
 
 
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